Entendendo os Hormônios: Endocrinologia Além da Obesidade

O que há de comum entre um cavalo e uma ameba ? Aparentemente nada, mas são ambos seres vivos, pertencentes ao reino animal. A diferença (entre muitas outras, é claro!) é que a ameba é formada por uma única célula, ao passo que o cavalo, como a maioria dos animais, incluindo os chamados racionais, é constituído por milhões de células. Estas células, que vão formar os diferentes tecidos e órgãos, como o coração e o fígado, precisam se comunicar de algum modo, para que o organismo vivo a quem elas pertencem possa funcionar em harmonia. Para que isto seja possível, possuímos dois sistemas de integração: o sistema nervoso e o sistema endócrino. Mas, como funcionam ? Vamos imaginar um jogador de futebol encarregado de cobrar um penalty em final de Copa do Mundo. O sistema nervoso faz com que o atleta pense aonde chutar a bola, e que a ordem seja transmitida para a perna e o pé. Já o sistema endócrino faz com que a tensão provocada pela responsabilidade provoque a liberação de substâncias chamadas hormônios que irão colocar o jogador em estado de alerta, ajudando-o na difícil missão. O que também percebemos com este exemplo é que os dois sistemas de integração “conversam” entre si, agindo de forma integrada.

O sistema endócrino tem este nome porque é constituído de glândulas que lançam as suas secreções diretamente dentro da circulação sangüínea -daí endo (para dentro)crinas-, o que as difereciam das glândulas, como as que produzem a saliva e o suor, que lançam seus produtos para fora do organismo - exo (para fora) crinas. As substâncias produzidas pelas glândulas endócrinas são chamadas de hormônios, e os médicos que se especializaram no tratamento dos distúrbios hormonais são os endocrinologistas.

Muitas pessoas leigas acham que o endocrinologista é o médico que somente trata do obesos ( “médico de regime”). Apesar da obesidade ser um dos distúrbios do metabolismo mais comuns, e alguns hormônios estarem implicados nos mecanismos de fome e de saciedade, a maior parte dos obesos não apresenta primariamente problemas hormonais. Por outro lado, o endocrinologista lida com um vasto número de doenças glandulares, que, se adequadamente tratados, têm solução gratificante.

Quais e quantas são as glândulas endócrinas ?

São seis as glândulas endócrinas “tradicionais”: Hipófise, tiróide, paratiróides, suprarrenais (ou adrenais), o pâncreas endócrino, e as gônadas (testículos e ovários),. Por que coloquei tradicionais entre aspas ? porque hoje sabemos que vários outros órgãos ou tecidos produzem substâncias que podem agir tanto em células vizinhas como preencher o conceito de hormônio, ou seja, cair na corrente sanguínea e ser levadas para órgãos distantes, onde irão exercer os seus efeitos. É o exemplo do tecido gorduroso, que produz um hormônio chamado leptina que vai atuar no cérebro inibindo o apetite, e do estômago, que fabrica a grelina. Esta, como a leptina, atua no cérebro, mas ao contrário, aumentando o apetite. Posso ainda citar o coração, que fabrica um hormônio que orienta os rins a eliminar excesso de sal. Desta forma, os nossos depósitos de gordura, o estômago e o coração não deixam de ser glândulas endócrinas. Desta forma, o conceito tradicional de glândula endócrina expandiu-se consideravelmente.

Prof. Dr. Marcello D. Bronstein - Endocrinologista