Reflexões sobre o Tratamento da Obesidade

A obesidade atingiu proporções epidêmicas, tornando-se um problema de saúde pública. Desta forma, além da natural preocupação com a estética, as pessoas acima do peso devem pensar nas doenças associadas à obesidade, como pressão alta, diabetes, elevação de gorduras no sangue e problemas nas articulações, como joelho. Elas levam à prejuízo na qualidade e mesmo na expectativa de vida.

O tratamento da obesidade nem sempre é fácil, principalmente para as pessoas com propensão hereditária, mas é sempre possível. Embora a forma mais segura de perda e manutenção do peso seja a mudança dos hábitos alimentares e os exercícios físicos, frequentemente ela pode falhar: não é fácil para muitos pacientes conter o apetite e mudar hábitos errados que os acompanham há anos, assim como o natural impedimento que o excesso de peso traz à realização de exercícios. Desta forma, maus profissionais propagam dietas apelativas, remédios miraculosos e mesmo a falsa idéia de que fatores, como pouco funcionamento da tireóide, são causa importante de obesidade.

Desta forma, os medicamentos moderadores do apetite podem ajudar a arrancada inicial. Os velhos derivados da anfetamina, como a anfepramona e o fenproporex, atuam reduzindo a fome, mas possuem efeitos colaterais consideráveis (principalmente para o sistema nervoso e cardiovascular) e tendem a perder seu efeito a curto prazo. Foram substituídos em grande parte pela sibutramina, droga que atua na saciedade, ou seja, faz que os pacientes tenham vontade de comer (o que é desejável !) mas que se satisfaçam com menores quantidades. No entanto, a sibutramina também apresenta os efeitos colaterais descritos para os outros medicamentos, embora geralmente mais brandos. Desta forma, não deve ser indicada de forma indiscriminada, principalmente para pacientes hipertensos, ou portadores de distúrbios mentais.

Infelizmente, o uso da sibutramina passou a ser indiscriminado, sem avaliação adequada das condições clínicas do paciente e, frequentemente, sem acompanhamento. Muitas pessoas inclusive utilizam a medicação sem um programa de reeducação alimentar, o que é um absurdo. Desta forma, e baseados num estudo com pacientes portadoras de doenças cardíacas (justamente aqueles que poderiam se prejudicar com o medicamento) a sibutramina foi proibida na Europa, Estados Unidos, e agora a ANVISA quer proibi-la no Brasil, junto com os outros moderadores do apetite.

Pessoalmente, acho que a medida é precipitada: ao invés de proibir o uso da sibutramina, a ANVISA deveria restringi-la para casos bem indicados. Para tanto o receituário deve ser rigorosamente controlado (o que já vem sendo feito), e as indicações e contra-indicações ressaltadas, cabendo aos profissionais que lidam com obesidade a decisão de utilizá-la ou não (incluindo, eventualmente, outros anorexígenos). Com estas medidas poderíamos incrementar os resultados positivos do tratamento “convencional” da obesidade, deixando medidas mais drásticas, como a cirurgia bariátrica, para casos claramente indicados. Além disto, situações inadequadas e perigosas, como o mercado paralelo de anorexígenos, poderiam ser evitadas.

Prof. Dr. Marcello D. Bronstein